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A obsolescência humana na novela

Passei o dia no trabalho brincando com o ChatGPT, a inteligência artificial para conversas. Travamos diálogos surreais e esdrúxulos: perguntei a ela como seria a América Latina caso tivesse sido colonizada pela Inglaterra e também qual a relação entre Senhor dos Anéis e Game of Thrones. Em outra, pedi que escrevesse um diálogo fictício entre Jack Kerouac e José Saramago sobre experiências com drogas alucinógenas e países que se desprendem de continentes para vagar nos oceanos. A essa última, informou que não tinha habilidades para fazer.

Apesar dessa negativa, o teste me assombrou. Era difícil imaginar que aquele texto havia sido sintetizado por uma máquina, tão bem escrito e articulado era. Mesmo quando a ela inventou respostas, o resultado era indistinguível do que um humano poderia ter feito.

Voltei para casa assombrado com a máquina, e encontro minha mãe na sala assistindo o jornal. Sento e imediatamente começa a passar reportagem sobre o feito americano no desenvolvimento da fusão nuclear.

A matéria não tarda a colocar uma especialista para comentar: “no futuro essa fonte de energia será suficiente para suprir a demanda de eletricidade de todo o planeta a custo baixíssimo e com mínimo impacto ambiental”.

Foi o suficiente para que eu encarnasse o profeta do apocalipse tecnotrônico que se abaterá sobre nós, humanos.

— Mãe, as vezes fico pensando como será o futuro da humanidade daqui uns 100 anos… hoje nos preocupamos tanto com pesquisas sobre o uso de fontes renováveis, porque a energia eólica e a solar são intermitentes, então tem que usar baterias ou utilizar outras fontes, vamos lá e aplicamos inteligência artificial para resolver esses problemas… aí o pessoal desenvolve a fusão nuclear e pêi, centenas de milhares de pesquisadores e seus trabalhos desenvolvidos ao longo de décadas e décadas se tornam obsoletos.

Continuei: — Daí você pensa nos problemas que são computacionalmente insolúveis, que não tem algoritmos que os resolva. Chega o computador quântico e pronto, tudo se tornou trivial e resolvível, mais um monte de pesquisadores e seus papers vão para a lata de lixo da história…

— E ainda tem essas inteligências artificiais que você descreve uma cena e ela desenha pra você! Ou você dá um tema e ela escreve sobre! O que será dos desenhistas, dos escritores, desses artistas… o futuro não vai precisar dos humanos…

— É meu filho – cortou-me minha mãe -, é tipo esse robô da novela, que tá roubando o emprego do garçom.

E não é que é isso mesmo?

Somos ou seremos todos o garçom Joel.

 

 

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