Por um Escritório de Dados para Políticas Públicas em Belém

Dados sempre foram determinantes para a concepção e implementação de políticas públicas nas mais diferentes esferas governamentais. Acompanhamentos de indicadores econômicos, de saúde, de violência, de deslocamentos urbanos, de distribuição espacial da população, de áreas de cobertura de locais de lazer, entre outros, são apenas alguns dos dados que podem embasar o desenho de políticas públicas que visem, por exemplo, determinar incentivos econômicos a serem realizados, investimentos em saúde ou aparelhos policiais, zoneamento de áreas urbanas, e muito mais.

Em que pese o desenvolvimento e utilização desses dados não serem novidade, o atual cenário tecnológico, propiciado pela dispersão de sensores dos mais variados tipos, conexão com a internet e alto processamento computacional, permitiram formas inovadoras de coletar, processar, e utilizar esses dados como componentes importantes na definição de políticas públicas.

Imagine, por exemplo, a malha de transporte coletivo da cidade. Com GPSs integrados aos ônibus, somado à quantidade de usuários com celulares, é possível determinar com grande precisão a dimensão dos usos desses veículos, em que faixa de horários eles estão lotados, em quais estão vagos, as linhas em que há excesso e as que há pouca demanda. Assim, é possível modelar a malha de transporte de uma forma mais inteligente, atendendo as necessidades dos cidadãos.

Mantendo-se na área do transporte público, sabemos da quantidade absurda de ônibus que quebram durante o trajeto – o famoso “deu prego”. Quantos desses acontecimentos geram registros de reclamações nas agências reguladoras competentes? Um simples aplicativo de celular que pudesse fazer o registro, acrescentando fotos, horário, local e linha, seria suficiente para termos um mapeamento real desse problema que enfrentamos diariamente.

Os usos inovadores de dados com vistas ao interesse público não se limita à área do transporte. Se pensarmos na saúde, é possível estimar a quantidade de bairros e pessoas atendidas por cada posto, identificar as áreas mais carentes, e priorizá-las para a instalação de novas unidades; auxiliar a confecção e distribuição de cestas de produtos da agricultura familiar para consumidores em diferentes bairros; monitorar a poluição em canais e igarapés da cidade; e muito mais.

E mais importante, os dados só fazem sentido de serem utilizados quando em consonância e diálogo com os cidadãos, os principais beneficiados pelas políticas públicas a serem desenvolvidas, e quando seu desenho e aplicação é acompanhado por olhares de múltiplas disciplinas, de forma a atuar na análise do impacto e na orientação da política em si. Dessa forma os dados não seriam totalitários e nem impositores no desenvolvimento das políticas públicas, assumindo em verdade um papel de mais um componente, importante mas não absoluto, na confecção destas.

É com esse intuito e, aproveitando o momento eleitoral, que recomendamos a instalação de um escritório de dados em Belém, de forma a coordenar, obter e processar diferentes tipos de dados para auxiliar no desenvolvimento de políticas públicas eficientes e que promovam o bem-estar para nossa população.

3 comentários em “Por um Escritório de Dados para Políticas Públicas em Belém”

  1. Muito importante e até urgente essa atenção aos dados abertos, a cidade tem muito a ganhar com uma iniciativa dessa.
    Mas como seria possível evitar o viés de classes mais favorecidas (carregando smartphone + plano de dados), por exemplo mostrando rotas mais ‘elitizadas’ como principais, ou notificando problemas em áreas mais nobres em detrimento das mais necessitadas?

    1. Sua pergunta é muito oportuna, @Rafael. São preocupações verdadeiras que uma cidade democrática precisa resolver quando for implementar serviços desse tipo.

      Tudo depende bastante da aplicação em desenvolvimento e sua finalidade. Por exemplo, no post falo de um aplicativo para denunciar os problemas de ônibus dando prego. Não é necessário que todo mundo tenha um celular com plano de dados e o aplicativo instalado – com a quantidade de pessoas que andam no transporte coletivo, uma ou outra com o aplicativo já seria suficiente pra fazer o monitoramento.

      Outra possibilidade, parecida com o exemplo acima, é digamos um aplicativo para marcação de consultas no posto de saúde. Nem todo mundo precisa ter o celular para aproveitar essa funcionalidade – bastaria alguém da família, um vizinho ou amigo com acesso ao aplicativo para visualizar a agenda e marcar a consulta para alguém que não tem acesso a essa tecnologia. Ou ter um ponto de acesso para realização desse serviço na associação de moradores do bairro.

      Por outro lado, alguns exemplos que citei não necessitam de aplicações no lado dos cidadãos – o monitoramento da utilização de ônibus ou postos de saúde, por exemplo, pode ser feitos no próprio veículo e no estabelecimento.

      Mas independente dos exemplos, penso ser muito evidente que não é possível “digitalizar” integralmente qualquer serviço ou política pública. Precisamos ser inclusivos, e a baixa inclusão digital de nossa sociedade é um problema estrutural.

      Por fim, o importante é que essas aplicações não acentuem ainda mais as desigualdades sociais que tanto batalhamos para eliminar – por isso que elas precisam de análise e acompanhamento, pois a tecnologia sozinha pode não funcionar.

  2. Pingback: Bate-papo com Vivi Reis sobre tecnologia e política – Filipe Saraiva's blog

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